-Porque estamos fartos desta vida monótona. - respondeu a minha mãe.
-Eu adoro a minha vida, tal como é. - saí de casa um pouco tonta com as novidades da ultima hora.
Quando dei por mim estava a pensar que nos últimos tempos as coisas tinham sido difíceis. De repente algo me chamou a atenção parecia um corpo caído no chão, aproximei-me um pouco e olhei em meu redor, a praia estava deserta, sentia as conchas por baixo dos meus pés. Corri até junto do corpo. Estava a ficar assustada, quando percebi que aquele corpo inconsciente era Beatriz, mas o que é que ela estava ali a fazer? Baixei-me junto dela, tentei agarrá-la mas era pesada demais para mim.
Tinha de pedir ajuda a alguém, mas esquecera-me do telemóvel em casa. Fui a correr para casa do Miguel, que não ficava muito longe da praia. Toquei à campainha, e as minhas pernas doíam de tanto correr. O Miguel abriu a porta, agarrei o braço dele e puxei-o.
-O que é que estás a fazer? Para onde é que vamos? Porque é que estás a chorar? - questionou-me, mas eu não conseguia responder estava em pânico... Estaria a Beatriz morta, ou inconsciente ? Nem queria pensar, só precisava de correr, correr, correr, tinha de correr !
Apercebi-me que o Miguel já tinha visto o corpo pois começou a correr mais depressa. Quando chegamos perto do corpo, o Miguel tentou sentir a pulsação dela.
- Está inconsciente! - disse ele.
Ele agarrou nela ao colo e seguiu em direcção à estrada, eu fui atrás dele sem dizer nada. Vi-a na cara dele que ele estava com dificuldades em transportar aquele corpo inconsciente. Não podia fazer nada para o ajudar, portanto continuei a segui-lo.
Chegamos ao hospital, sustivemo-nos quando uma ambulância passou à nossa frente. Quando entrámos no edifício uma enfermeira veio ter connosco.
-O que se passa com a vossa amiga? -perguntou-nos, enquanto ajudava o Miguel a agarrar nela. Tomei a iniciativa de responder.
-Nós achamos que ela está inconsciente, mas não sabemos ao certo o que lhe aconteceu. Encontrámos-la desmaiada na praia.
A enfermeira não me perguntou mais nada, e ainda bem pois provavelmente não saberia responder. Outro enfermeiro ajudou o Miguel a pousara a Beatriz numa maca do hospital e levaram-na para um quarto.
Já não aguentava mais as dores nas pernas e tive de me sentar numa das cadeiras velhas que estavam encostadas ao fundo do corredor. O Miguel vinha na minha direcção com um copo de água na mão.
-Estás bem? - perguntou-me. Acenei debilmente que sim, mas na verdade estava muito assustada com tudo o que tinha acontecido e poderia vir a acontecer...
O telemóvel do Miguel tocou.
-Estou ?! - disse ele. Levantei-me de seguida e perguntei a uma enfermeira onde era a casa de banho.
-Ao fundo do corredor. - indicou-me.
Entrei na casa de banho e vi um relógio grande pendurado na parede, já era bastante tarde, os meus pais deviam de estar preocupados. Aproximei-me do lavatório e molhei a cara, olhei-me ao espelho, estava uma lástima. Meti o carapuço na cabeça para que não se notasse muito a desgraça em que estava o meu cabelo.
Sai da casa de banho e choquei com o carrinho de limpezas.
-Desculpe. - disse atrapalhada.
O senhor nem olhou para mim.
Continuei o meu caminho, o Miguel estava exactamente no mesmo sítio, voltei a sentar-me ao pé dele.
-Podes emprestar-me o teu telemóvel? Ainda não liguei aos meus pais...
-Claro.
-Obrigada. - agradeci.
Liguei à minha mãe, e contei o que se tinha sucedido. E eles estavam agora a caminho do hospital.
Uma enfermeira baixa, com cabelos pretos e lábios pintados de vermelho, que passara naquele corredor, olhou para nós por instantes.
- Os meninos não têm fome? - perguntou - venham comigo!
Seguimos a enfermeira até um refeitório pequeno, onde pairava o cheiro a café e a bolachas.
O refeitório estava vazio, à excepção de um médico de bata branca, que estava sentado numa mesa ao pé da janela. Levantou-se logo assim que entrámos e saiu.
A enfermeira ofereceu-nos bolachinhas e leite com café. No fim de comermos, voltámos novamente para a sala de espera. E, quando chegamos, os nossos pais já lá estavam. Perguntaram-nos como estávamos e se já tínhamos noticias da Beatriz ao que respondemos que não.
Pensámos em avisar os pais da Beatriz, mas os pais dela tinham ido num cruzeiro para o Haiti.
Passado algum tempo, sai um médico do quarto de Beatriz, tinha os cabelos grisalhos e um ar cansado.
- A vossa amiga apanhou uma overdose, limpámos-lhe o estômago e agora está apenas um pouco atordoada.
- Obrigado doutor - agradeceu a minha mãe.
- Ora essa, eu aconselhava que a Beatriz passa-se a noite no hospital, para a podermos vigiar.
- Posso ir vê-la? - pedi.
- Hoje não querida, amanhã. -respondeu-me.
Olhei para o médico e sai do hospital. Fui para o pé do carro à espera dos meus pais. A única coisa que me apetecia era chorar, mas não podia, não ali, onde os meus pais podiam chegar a qualquer momento.
O Miguel veio a correr ter comigo, e abraçou-me. Não consegui segurar mais as minhas lágrimas, e chorei abraçada a ele. Ele não dizia nada, apertava-me fortemente contra o seu peito. Estivemos assim durante algum tempo. Os meus pais já estavam ao pé do carro a falar com os pais do Miguel. Entrei para dentro do carro, e adormeci.
Acordei no dia seguinte na minha cama, a primeira coisa em que pensei foi : Beatriz. Liguei ao Miguel para ele se despachar e vir ter comigo, para irmos com os meus pais buscar a Beatriz.
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